ALBERTO CAEIRO GUARDADOR DE REBANHOS PDF

Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa no dia 16 de abril de Уrfгo de pai e de mгe, sу teve instruзгo primбria e viveu quase toda a vida no campo, sob a proteзгo de uma tia. Caracterнsticas Alberto Caeiro й um poeta voltado para a simplicidade e as coisas puras. Viveu em contato com a natureza, extraindo dela os valores ingкnuos com os quais alimentava a alma. Й um poeta bucуlico, dб importвncia аs sensaзхes, registrando-as sem a mediaзгo do pensamento. Alberto Caeiro й o lнrico que restaura o mundo em ruнnas.

Author:Arashimuro JoJogrel
Country:Sierra Leone
Language:English (Spanish)
Genre:Automotive
Published (Last):16 July 2014
Pages:128
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ISBN:819-8-50909-817-3
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Num meio dia de fim de primavera Tive um sonho como uma fotografia Vi Jesus Cristo descer а terra, Veio pela encosta de um monte Tornado outra vez menino, A correr e a rolar-se pela erva E a arrancar flores para as deitar fora E a rir de modo a ouvir-se de longe. Tinha fugido do cйu, Era nosso demais para fingir De segunda pessoa da Trindade. No cйu era tudo falso, tudo em desacordo Com flores e бrvores e pedras, No cйu tinha que estar sempre sйrio E de vez em quando de se tornar outra vez homem E subir para a cruz, e estar sempre a morrer Com uma coroa toda а roda de espinhos E os pйs espetados por um prego com cabeзa, E atй com um trapo а roda da cintura Como os pretos nas ilustraзхes.

Nem sequer o deixavam ter pai e mгe Como as outras crianзas. O seu pai era duas pessoas - Um velho chamado Josй, que era carpinteiro, E que nгo era pai dele; E o outro pai era uma pomba estъpida, A ъnica pomba feia do mundo Porque nгo era do mundo nem era pomba. E a sua mгe nгo tinha amado antes de o ter. Nгo era mulher: era uma mala Em que ele tinha vindo do cйu.

E queriam que ele, que sу nascera da mгe, E nunca tivera pai para amar com respeito, Pregasse a bondade e a justiзa! Um dia que Deus estava a dormir E o Espнrito Santo andava a voar, Ele foi а caixa dos milagres e roubou trкs, Com o primeiro fez que ninguйm soubesse que ele tinha fugido. Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.

Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz E deixou-o pregado na cruz que hб no cйu E serve de modelo аs outras. Depois fugiu para o sol E desceu pelo primeiro raio que apanhou. Hoje vive na minha aldeia comigo. Й uma crianзa bonita de riso e natural.

Limpa o nariz no braзo direito, Chapinha nas poзas de бgua, Colhe as flores e gosta delas e esquece-as. Atira pedras nos burros, Rouba as frutas dos pomares E foge a chorar e a gritar dos cгes. E, porque sabe que elas nгo gostam E que toda a gente acha graзa, Corre atrбs das raparigas Que vгo em ranchos pelas estradas Com as bilhas аs cabeзas E levanta-lhes as saias.

Ensinou-me a olhar para as cousas, Aponta-me todas as cousas que hб nas flores. Mostra-me como as pedras sгo engraзadas Quando a gente as tem na mгo E olha devagar para elas. Diz-me muito mal de Deus, Diz que ele й um velho estъpido e doente, Sempre a escarrar no chгo E a dizer indecкncias. A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia, E o Espнrito Santo coзa-se com o bico E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.

Tudo no cйu й estъpido como a Igreja Catуlica. Diz-me que Deus nгo percebe nada Das coisas que criou - "Se й que as criou, do que duvido" - "Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glуria, mas os seres nгo cantam nada, se cantassem seriam cantores.

Os seres existem e mais nada, E por isso se chamam seres". E depois, cansado de dizer mal de Deus, O Menino Jesus adormece nos meus braзos E eu levo-o ao colo para casa. Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro. Ele й a Eterna Crianзa, o deus que faltava. Ele й o humano que й natural, Ele й o divino que sorri e que brinca.

E por isso й que eu sei com toda a certeza Que ele й o Menino Jesus verdadeiro. E a crianзa tгo humana que й divina Й esta minha quotidiana vida de poeta, E й porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre, E que o meu mнnimo olhar Me enche de sensaзгo, E o mais pequeno som, seja do que for, Parece falar comigo.

A Crianзa Nova que habita onde vivo Dб-me uma mгo a mim E a outra a tudo que existe E assim vamos os trкs pelo caminho que houver, Saltando e cantando e rindo E gozando o nosso segredo comum Que й o de saber por toda a parte Que nгo hб mistйrio no mundo E que tudo vale a pena. A Crianзa Eterna acompanha-me sempre. A direзгo do meu olhar й o seu dedo apontando. O meu ouvido atento alegremente a todos os sons Sгo as cуcegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.

Damo-nos tгo bem um com o outro Na companhia de tudo Que nunca pensamos um no outro, Mas vivemos juntos a dois Com um acordo нntimo Como a mгo direita e a esquerda. Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas No degrau da porta de casa, Graves como convйm a um deus e a um poeta, E como se cada pedra Fosse todo o universo E fosse por isso um grande perigo para ela Deixб-la cair no chгo. Depois eu conto-lhe histуrias das cousas sу dos homens E ele sorri, porque tudo й incrнvel.

Ri dos reis e dos que nгo sгo reis, E tem pena de ouvir falar das guerras, E dos comйrcios, e dos navios Que ficam fumo no ar dos altos-mares. Porque ele sabe que tudo isso falta аquela verdade Que uma flor tem ao florescer E que anda com a luz do sol A variar os montes e os vales, E a fazer doer aos olhos os muros caiados. Depois ele adormece e eu deito-o Levo-o ao colo para dentro de casa E deito-o, despindo-o lentamente E como seguindo um ritual muito limpo E todo materno atй ele estar nu.

Ele dorme dentro da minha alma E аs vezes acorda de noite E brinca com os meus sonhos, Vira uns de pernas para o ar, Pхe uns em cima dos outros E bate as palmas sozinho Sorrindo para o meu sono. Seja eu a crianзa, o mais pequeno. Pega-me tu no colo E leva-me para dentro da tua casa. Despe o meu ser cansado e humano E deita-me na tua cama.

E conta-me histуrias, caso eu acorde, Para eu tornar a adormecer. E dб-me sonhos teus para eu brincar Atй que nasзa qualquer dia Que tu sabes qual й. Esta й a histуria do meu Menino Jesus, Por que razгo que se perceba Nгo hб de ser ela mais verdadeira Que tudo quanto os filуsofos pensam E tudo quanto as religiхes ensinam? Partem para Durban, Бfrica do Sul. Josй Aguilar Editora - Rio de Janeiro, , pбg. Aguardamos dos amigos leitores crнticas, comentбrios e sugestхes. A todos, muito obrigado. Arnaldo Nogueira Jъnior.

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